
REVIEW S/ SPOILERS
O Cavaleiro dos Sete Reinos é mais uma obra de George R.R. Martin situada no universo de Game of Thrones adaptada dos livros para uma série de TV.
Diferente do que se possa pensar essa história não se trata de um spin-off, mas sim de parte importante da História contada ao longo não só das Crônicas de Gelo e Fogo, mas nos materiais adicionais, como Fogo e Sangue e O Mundo de Gelo e Fogo.
As aventuras de Sir Duncan, o Alto e seu Escudeiro o jovem Egg é contadas em três contos, organizado no livro que leva o nome de O Cavaleiro dos Sete Reinos, são eles:
◻ – O Cavaleiro Andante, 1998
◻ – A Espada Juramentada, 2003
◻ – O Cavaleiro Misterioso,2010
E o próprio Martin já declarou inúmeras vezes ter várias ideias para novas histórias da dupla, que se mesmo com suas poucas e curtas histórias, se tornaram muito queridos pelos fãs das Crônicas de Gelo.
Dito isso chegamos a 2026 com o conto O Cavaleiro Andante, sendo adaptado na primeira temporada de O Cavaleiro dos Sete Reinos, uma produção da HBO lançada em 6 episódios com certa de 35 minutos cada.
Mesmo sabendo da excelência da escrita de Martin, aliada a qualidade frequente das séries produzidas pela HBO, confesso que não tinha grandes expectativas para a chegada dessa série, ainda mais considerando o novelão que virou
A Casa do Dragão, e olha… como foi bom ser surpreendido.
Na história acompanhamos o jovem Duncan, escudeiro que um cavaleiro andante que, logo após a morte do seu Mestre, deseja seguir seu legado e ser reconhecido ele próprio como um Cavaleiro.
No caminho ele encontra o pequeno Egg, que se oferece como seu escudeiro, em uma jornada que leva ambos por um caminho totalmente inesperado, cruzando o caminho da Família Real Targaryen.
Uma premissa simples para uma história simples, o que não é em nenhum momento um problema para a série, indo na contra mão da complexidade de Game of Thrones ou da queda da Guerra Civil Targaryen de A Casa do Dragão, Cavaleiro dos Sete Reinos foca em seus protagonistas, seus anseios, o compromisso com a honra e o dever, os traumas do passado e principalmente a busca por um propósito.
Logo de início o tom dessa série me chamou muito a atenção, não precisa mais do que alguns minutos para sua expectativa ser quebrada por um alivio cômico bem incomum, essa história com certeza vai ser contada com uma leveza uma certa falta de noção que em momento nenhum caberia em Game of Thrones, por exemplo .
Essa percepção é fundamental para entendermos a proposta da série, como ela quer mostrar os valores que são importantes aos seus personagens, contrastando sim com a maldade do mundo ao redor deles, mas sobretudo mostrando que essa é uma Westeros onde honra, tradição e dever ainda tem seu lugar, são valores pelos quais ainda vale a pena lutar.
Justamente essa é a visão de Duncan o nosso protagonista, interpretado por Peter Claffey. Duncan é meio desprovido de inteligência, claramente não entende exatamente as relações do mundo que o rodeia, é desajeitado e deveras ingênuo, mas focado no seu proposito de se tornar um cavaleiro, pela simples virtude de ajudar os menos favorecidos.
Para entender com a personalidade de Duncan foi formada a série faz uso doso bons e velhos flashbacks.
Espalhados ao longo dos episódios, e contam muito do passado de Duncan, de como ele via seu Mestre e suas realizações e nos ajudam a entender a sua vocação para Cavaleiro.
São flashbacks curtos, com exceção a do penúltimo episódio que não só explicam sobre o personagem, seu caráter e sua motivação como levantam um duvida interessante sobre sua condição de Cavaleiro.
Peter Claffey é um poço de carisma como Duncan, eu não tenho formação cênica, não há como analisar sua atuação, o que eu posso dizer que há muita verdade nela, eu não enxerguei alguém atuando eu realmente vi ali Sir Duncan, o Alto, alguém verdadeiramente bom, alguém com quem eu realmente me importava.
No mesmo nível de carisma e com o plus de ser uma criança das mais fofas, Dexter Sol Anser dá vida ao nosso Egg, com toda a sua sagacidade, sua inteligência e conhecimento do mundo, pouco comum para uma criança da sua idade.
A construção da relação entre Dunk e Egg é fundamental para que ambos achem de fato o caminho a qual pertencem e entendam sua busca por um propósito. E isso jamais funcionaria se a química entre os atores não existisse. Ela não só existe como é ótima, é muito satisfatória a interpretação dessa dupla, tão divertidos como nos livros.
O resto do elenco funciona muito bem também, é uma série que foca nos seus protagonistas para contar sua história a partir da construção da relação entre eles, de modo que, não sobre muito tempo para desenvolver os coadjuvantes, ainda sim o que é necessário saber sobre eles, para que seus se fechem e façam sentido, isso é feito e muito bem feito.
O destaque fica para Bertie Carvel como Baelor Targaryen, e para o ótimo Daniel Ings, na pele do Tempestade Risonha, Lyonel Baratheon, o personagem que na minha opinião roubou a cena nessa temporada.
Os valores de produção dispensam comentários, esse é um ponto que a HBO raramente decepciona, as paisagens das locações externas, os detalhes das internas, com seus castelos, tendas e estalagens, tudo muito verdadeiro, rico em detalhes, uma construção de mundo épico muito bem feita.
Da mesma forma eu não poderia deixar de falar das cenas de ação, uma representação que presa muito mais pelo que seria um combate real sem glória, sem movimentos estilizados, só o horror, o medo, a extenuação física de lutar com armas e armaduras pesadas, em meio a dificuldade de sequer conseguir ficar de pé, em meio a um piso de lama e sangue.
O penúltimo episódio reserva uma das cenas épicas de batalha, sob um ponto de vista incomum, e tem um trabalho não só de câmera, mas um trabalho de som maravilhoso, sem dúvida uma das cenas de batalha já vistas em uma série.
O que eu senti falta foi de uma trilha sonora que fosse realmente memorável. Ainda que não seja ruim, longe disso, não é uma trilha marcante, que realmente transforme nossas impressões e sensações acerca do que é visto em tela, ela cumpre seu papel e nada além disso.
Minha maior queixa a Cavaleiro dos Sete Reinos é com relação a duração dos episódios, a narrativa fluida entrega uma história tão boa, com personagens tão adoráveis que um episodio de 35 minutos por semana é pouco, muito pouco. O episódio mal acaba e a gente já está morrendo de saudades, aliás, a série mal acabou e eu já não vejo a hora da segunda temporada.
Talvez você seja aquele tipo de fã que está morrendo de raiva do Martin, tudo porque ele ainda não terminou de escrever o final das Crônicas de Gelo e Fogo, mas você há de concordar comigo que a escrita dele é sensacional.
Martin é muito habilidoso em criar dilemas e motivações para sues personagens, estabelecendo relações e consequências, mostrando como as coisas se encaixam como traumas surgem, como se tornam motivações sempre atento a realidade das consequências para as ações de seus personagens, sempre muito bem construídos, muito reais, com qualidades e defeitos, o que torna muito fácil a identificação com a obra e com esses personagens.
Em uma adaptação muitos elementos precisam ser alterados para que a história seja ajustada à mídia que está sendo adaptada, para que ela tenha o mesmo impacto de sua mídia original, e muitas vezes nesse processo, a essência da obra pode se perder, isso aqui não acontece. Seguramente a adaptação é pelo menos 80% fiel ao livro, até nos diálogos vários são idênticos ao do livro.
Se você tem pouco ou nenhum contexto sobre Game of Thrones, não se preocupe, essa primeira temporada pode se assistida sem nenhum problema, seu entendimento não ficará comprometido, mas claro, um conhecimento prévio das séries e/ou livros desse Universo, torna tudo ainda melhor, com as referências e easter eggs.
O Cavaleiro dos Sete Reinos é uma série ótima, que acerta em praticamente todas as suas propostas e de quebra entrega dois personagens adoráveis, pelos quais me importei e me identifiquei como há um bom tempo não acontecia. Depois das quatro primeiras temporadas de Game of Thrones, essa é com certeza a melhor temporada de uma série desse Universo.
A temporada de estreia de O Cavaleiro dos Sete Reinos é a melhor deste universo desde as primeiras temporadas de Game of Thrones, o tom é leve, e o foco está no propósito e nos dilemas dos protagonistas que são sem dúvida a melhor coisa dessa série.

Sobre o Autor
Membro vitalício da Ordem dos Dúnedain, está nesse negócio de nerdices e Cultura Pop muito antes de Canção dos Ainur ser cantada. Criador desse espaço como ponto de exposição e opinião de tudo o que rola no Universo da Cultura Pop, além de exercitar seu amor pelo Cinema, Quadrinhos, Games e muito mais...











