
Stranger Things ganhou seu episódio final exatamente na virada do ano, as 22hs do dia 31 de dezembro.
Eu acredito que você assim como eu, achou um jeito no meio de suas comemorações de Réveillon para assistir o episódio, tamanha eram a ansiedade e a expectativa. E para muita gente, a decepção pelo final foi muito, muito grande.
Eu paro para escrever esse texto mais de um mês depois do lançamento do episódio final, e depois de pensar muito a respeito, e de ver a histeria coletiva de uma teoria furada de que a Netflix publicaria o famigerado Episódio 9, um “final verdadeiro da série” no dia de 10 de Janeiro. É claro que isso nunca aconteceu o final é aquele mesmo que nos foi entregue no Ano Novo e depois de muito refletir, posso dizer que eu gosto do final, mas desgosto muito de como as coisas chegaram lá.
Stranger Things 5 – Volume I
Stranger Things 5 – Volume II
Nas análises dos dois primeiros volumes dessa temporada, eu já destacava a lentidão com que a trama avançava, foram sete episódios onde não acontece praticamente nada.
No Volume I a gente entende, que a série estava abrindo espaço para fortalecer as relações entre os personagens ao mesmo tempo em preparava o tabuleiro para os até então, vindouros episódios finais.
Porém, quando veio o Volume II e praticamente nada aconteceu, e até a tal preparação para o desfecho final veio num tom totalmente anticlimático, mas a esperança para um desfecho épico estava viva e forte em nossos corações.
E a chegada do episódio, foi o ápice para a decepção da maioria dos fãs, já que escancarou todos os muitos defeitos dessa temporada, desde uma temporada com muitos episódios, mas com pouquíssima história, narrativa truncada, personagens em excesso, e total falta de coerência em diversas soluções de roteiro.
A escolha de 8 episódios de 1h cada em média, acarretou arcos desnecessários, repetições de diálogos e situações para reforçar relações que há muito já vinham estabelecidas, e que do limiar da história, tiveram pouca ou nenhuma relevância para o desfecho da trama, considerando essa duração de 01 h por episódio, essa é uma história que seria facilmente contada em 3,4 capítulos.
Isso se tornou um problema para os Duffer, que por sua vez, já tinham um problema enorme nas mãos, já que a história ficou muito grande e muito complexa, e entregar um final coerente e satisfatório para uma legião de fãs sedentos e dopados de expectativa, era realmente uma situação pra lá de desafiadora.
Enquanto que é senso comum que a temporada tem episódios demais e história de menos, o desfecho divide o público, alguns gostaram, outros não. Eu pessoalmente gostei das escolhas para o final (com uma exceção, mas a gente já chega lá!) mas o caminho até elas foi recheado de escolhas e desenvolvimentos muito ruins.
E não tem nada a ver com matar ou não os personagens, que eles têm armadura de roteiro, isso é claro, seu eu queria ver algum dos personagens centrais morrendo? Eu digo que não, Stranger Things nunca foi esse tipo de série (é galera, não é Game of Thrones), e não é agora no seu final, que passaria a ser.
Da mesma forma, os diálogos dividiram minhas opiniões ao longo de toda a temporada, foi legal ver o quase rompimento de Steve e Dustin, esse não sabendo viver o peso do luto pela morte do Ed na Temporada 4
A conversa de “despedida” entre Nancy e Jonathan, a reafirmação dos poderosos laços entre Will e Mike, Eleven e Hooper, Max retornando e revivendo na nossa memória como a relação entre o núcleo principal dos personagens é muito legal. Esses são só alguns exemplos de pontos que fizeram de Stranger Things o fenômeno que é, e que são reafirmadas nessa última temporada, ponto positivo para o final da série.
ALERTA DE SPOILERS!
Se é que alguém ainda se importa…
STRANGER THINGS 5 l EPISODIO FINAL
Tarefa difícil foi elencar o que realmente deu certo!
Talvez você se lembre da Holly (Nell Fisher) e do Derek (Jake Connelly) que roubaram a cena nessa temporada, o final que é emocionante (daqui a pouco falamos disso…), e principalmente da revelação dos poderes do Will, que foi o ápice dessa temporada sem dúvida nenhuma. Lembrando que esse episódio foi dirigido pelo ótimo Frank Darabont (Nevoeiro, Um Sonho de Liberdade).
Incrível como uma série que se manteve tão boa ao longo de 4 temporadas, e isso não quer dizer que problemas não existissem, se perdeu ao longo desses oito episódios finais.
A lista é longa e para esse texto não virar uma tese sobre como a última temporada teve muita coisa ruim, vamos passar rapidamente pelos pontos em que a série escorregou feio:
◼ Linda Hamilton e os Militares
Não serviu para absolutamente nada, a personagem da grande Linda Hamilton é totalmente desperdiçada, perdida num texto que coloca essa campanha militar que no máximo é um incomodo para os protagonistas, na real, estão lá só para servir de fast food de Demon Gorgon, e de tira ao alvo pra Nancy, Hooper e cia ltda. E pior, com ZERO consequências nas ações que envolvem esse arco.
Discorda? Recorde do final, Hooper e Nancy mataram uma “penca” de militares e não acontece nada com eles, eu disse nada! O Hooper aliás volta a ser xerife em Hawkings!! Matar militar melhora seu currículo, nesse universo da Série.
Todas as crianças sabiam o que os militares estavam fazendo, e tudo mundo vai embora tranquilo, não rola uma prisão, uma tortura, lobotomia, queima de arquivo, nada !
◼ Muito personagem para pouca história
Holly e Derek foram os destaques dessa temporada, ao lado do Will que enfim teve uma curva digna de personagem.
Fora isso temos um monte de gente dentro da história, mais gente nova chegando, e arrumar função narrativa para toda essa galera, que de fato faça sentido na série é uma batalha árdua.
E sem dúvida os Duffer perderam essa batalha, tem um monte de personagem que não precisava estar nessa temporada, tem personagem que deveria ter morrido e não morre, e acaba com a nossa suspensão de descrença
Tem personagem que aparece dando indício de que será relevante para a trama, mas acaba totalmente “esquecido no churrasco” e sim, estou me referindo à Vick, mais um desperdício de uma boa atriz, dessa vez, a adorável Amybeth McNully, de Anne With an E.
E tem personagem que nem deveria aparecer nesse ponto da história, quem precisava da Mãe da Nancy, toda ferrada no hospital salvando o dia? Murray contrabandista, Professor de Física do Dustin, a Kally retornando, ahhh a Kally….
◼ Não deu certo, vamos trazer ela de novo!!
É um senso comum entre os fãs de que o arco da Kally, a “irmã” da Eleven, é a pior coisa da segunda temporada, e é mesmo!
De quem foi a decisão de trazer de volta essa personagem eu realmente não sei, mas olha que decisão terrível! Personagem irritante, com quase nenhuma função narrativa, em que morre no final somente para conferir um nível de tragédia e drama, mas convenhamos, desde a primeira aparição da personagem nessa ultima temporada, todo mundo já sabia que isso iria acontecer.
◼ Nada disso faz sentido!
A lista de coisas que não fazem sentido nessa temporada é longa, temos personagens descaracterizados, diferentes daquilo que foi construído ao longo das temporadas anteriores, tem decisões de roteiro que não se sustentam à mínima busca de coerência, e que nem os próprios criadores conseguem entregar uma explicação que convença.
Tem uma sucessão de diálogos expositivos, explicando planos e mais planos, que deixam todo mundo cansado, sem a menor vontade de apreciar os diálogos de construção e discussão das relações, que aliás sempre foi um marco positivo da série.
◼ A Batalha Final
E sim a estética é legal, o visual do monstro é bom, mas a batalha é muito morna. Em nenhum momento existe um senso de urgência real, muito menos o Devorador de Mentes representa algum perigo para os personagens do núcleo central, não tem, eu repito, não tem a menor chance de temermos de verdade pela vida de alguém.
A escala da ameaça também compromete, primeiro porque o Monstro é subjugado com muita facilidade, sem sequer arranhar qualquer um dos personagens, segundo, não temos, demongorgons, demondogs, morcegos, nada! Como que na dimensão de origem dessas criaturas, na batalha final temos só Vecna e o Devorador? Como?
A explicação dos Duffer foi ainda pior, e aqui fica muito claro que não havia final planejado coisa nenhuma, realmente eles não sabiam como finalizar essa história.
◼Vecna o Vilão Bucha
O Vecna da quarta temporada é uma ameaça consistente, assustadora, que desperta raiva, medo e repulsa. O Vecna da temporada final, é um vilão fraco, que não desperta medo, não representa uma ameaça real e no final das contas é derrotado com facilidade, terminando com uma morte muito, mas muito anticlimática.
E a culpa é exclusivamente do texto, Jamie Campbell Bower passa a margem dessa ruindade toda, pois a sua atuação é excelente, a melhor da série sem sombra de dúvidas, o Vecna perdeu credito na ultima temporada, mas com certeza a culpa não é do ator.
Até os flashbacks que revelam o passado do vilão que funcionaram tão bem na temporada 4, aqui soam estranhos, incompletos, que não ligam corretamente as pontas. Só fazem realmente sentido se você assistiu há Peça de teatro First Shadow, que conta no detalhe o passado de Henry Creel. Não preciso nem dizer que a história da série precisa se sustentar sozinha, sem que o expectador seja obrigado a conhecer historias do universo expandido para ter uma compreensão correta da história.

STRANGER THINGS 5 l EPISODIO FINAL
Eleven sempre foi uma das, senão a principal personagem. Isso desde a primeira temporada. Toda a história do Mundo Invertido sempre girou em torno, e a grande ameaça da série, só existe por causa dela.
De modo que, é de se estranhar que a temporada tenha ficado totalmente para escanteio nessa temporada.
Se tem relação eu não sei dizer, mas é fato que Millie Bobby Brown não esteve bem nessa temporada, no seu pouco tempo de tela vemos a atriz com muita dificuldade para comunicar verdade, e principalmente emoção.
Mas em se tratando de Eleven a decepção maior ainda estava por vir. Depois de uma temporada apagada, com momentos pouco empolgantes e uma temporada em que personagem tem pouquíssimo destaque, o final da personagem é qualquer coisa de horrorosa.
Matar a personagem parecia ser uma escolha cruel, mas que confere o peso dramático que um final de uma história dessa grandeza merece e precisa.
Ver os personagens lidando com as consequências dessa perda, faz todo o sentido, e no fundo, eu sempre acompanhei os palpites dá uma boa parcela dos fãs que achava que a garota morreria no final.
Triste é ver como esse final foi construído, já que toda a circunstancia que envolve a morte não faz nenhum sentido, você elevar sua suspensão de descrença muito acima do que o contrato dessa série sempre lhe propôs para você aceitar minimamente as circunstancias da morte de Eleven.
E tudo fica ainda pior, quando por pura falta de coragem, ou uma conveniente necessidade de manter a personagem viva de certa forma, para possíveis, diria prováveis, continuações, a serie entrega uma possível saída para que a personagem fique vive, que pasmem, faz menos sentido ainda!!
Veja bem, eu não tenho problemas com mortes de personagens que eu gosto, perdi isso depois das primeiras temporadas de Game of Thrones, o meu problema é com final ruim, que não se decide para onde vai, que apresenta um sacrifício do protagonista para invalida-lo logo em seguida.
Matrix Ressurrections fez isso, a Marvel está prestes a fazer com Robert Downey Jr., chegando para fazer o papel do Doutor Destino, e tantas outras obras que tentam ser sombrias e trágicas, mas que no fim das contas, acaba cedendo ao final feliz e /ou otimista.
De tudo o que foi ruim nesse final, isso sem duvida foi o que mais em incomodou.
STRANGER THINGS 5 l EPISODIO FINAL
Entre alegrias, indiferenças e decepções, o amor pela série falou mais alto quando eu percebi que estava chegando nos momentos finais.
Primeiro a conversa cômica e emocionante entre Nancy, Steve, Jonathan e Robin, com uma promessa de amizade eterna mesmo diante das dificuldades da vida adulta.
E claro, o retorno ao porão da casa do Mike, com todos reunidos e contando com a presença da Max, jogando Dungeons & Dragons, uma última vez, uma última campanha, que sacramenta o que essa série sempre teve de melhor, os diálogos elaborados e inteligentes, a construção e a relação entre os personagens, o senso de aventura com altas doses de terror e ficção cientifica e claro, a nostalgia a cultura pop dos Anos 80 que cativa até quem não viveu essa década maravilhosa.
Esse é um final que aquece o coração e que encanta, emociona, são quase dez anos acompanhando essas crianças que agora nem são mais crianças, e que de alguma forma se tornaram parte da nossa vida.
Stranger Things fez escolhas ruins para construir seu final, ficou longe de atender ao final épico esperado pelos fãs, e de fato captura nossa emoção muito mais pelo amor que construímos ao longo dos anos assistindo a série.
No balanço final, porém o saldo é positivo, foram quatro temporadas de uma história cativante, de personagens memoráveis, de muitas emoções e sensações, e de pura nostalgia dos inesquecíveis anos 80.
Entendo que falta qualidade e coerência no final, que as expectativas não tenham sido atendidas, mas pensar na jornada como um todo, no que vivemos ao longo das temporadas anteriores, como nos apaixonamos por essa história e por esses personagens que são pra lá de cativante, torna tudo menos decepcionante.
É assim que eu encaro o final da Série, Hawkings e suas “Coisas Estranhas” estarão para sempre dentro do meu Coração.

Aquele Final que esquenta o Coração ❤
Leia Mais…
FRANKENSTEIN
Versão de Del Toro tem visual encantador e visão intimista Poucos diretores da atualidade tem…
DINHEIRO SUSPEITO
A primeira grata surpresa de 2026 Dinheiro Suspeito é a mais nova adição ao catálogo…
STRANGER THINGS 5 l EPISODIO FINAL
A expectativa ainda é a Mãe de todas as Decepções Stranger Things ganhou seu episódio…
Stranger Things 5 Volume II
A preparação continua… Stranger Things 5 e seu segundo volume contendo mais três episódios da…
Avatar Fogo e Cinzas: Visual Deslumbrante, Roteiro Fraco
Filme mantém visual deslumbrante, mas peca com roteiro fraquíssimo A história planejada por James Cameron…
Stranger Things 5: foi um bom começo?
Volume I chega com quatro episódios em preparação para o desfecho grandioso da Série “Porque…
Sobre o Autor
Membro vitalício da Ordem dos Dúnedain, está nesse negócio de nerdices e Cultura Pop muito antes de Canção dos Ainur ser cantada. Criador desse espaço como ponto de exposição e opinião de tudo o que rola no Universo da Cultura Pop, além de exercitar seu amor pelo Cinema, Quadrinhos, Games e muito mais...










